Bem alinhadas, as árvores contornam o caminho. Dás-me a mão distraidamente; sinto os teus dedos entrelaçarem-se nos meus como aquela trepadeira acolá, que dá a volta a um tronco meio tombado.
Era tão simples, sabes, ser um tronco meio tombado no meio de um bosque e esperar pacientemente que te enroscasses em mim. Só que esta ansiedade em mim pede a urgência do teu abraço, do teu corpo todo no meu, rápido, imediato.
Quantas vezes, para sobreviver às tuas ausências, eu revejo a tua perna a rodear-me a cintura e a amarrar-me nesse teu beijo que sabe a frutas que só existem na minha imaginação — numa floresta que criei com o que vais deixando em mim em cada beijo, carícia ou palavra.
Tenho consciência de toda a tua mão na minha: os nós dos dedos, as unhas e a palma cheias de traços de vida. Tenho vontade de subir pelo teu pulso e, num impulso, despertar-te desses devaneios em que vais, mergulhando nos teus lábios um beijo cheio de luxúria. No entanto, hoje vais longe de mim… e deixo-te estar.
Inquieta-me o silêncio. A tua mão quase esquecida na minha, dedos esvaídos de vida. Invento palavras que não saem pela minha voz. Fico a um canto a tentar escutar os teus pensamentos; oiço os pássaros, o vento, as abelhas, as folhas secas a estalarem debaixo dos pés, mas de ti apenas o silêncio.
Quero dizer disparates, uns quaisquer, uma piada, um trocadilho parvo. Contudo, zango-me comigo: por que tenho de ser eu a escalar a parede do silêncio? Por que não vens tu aqui dizer-me qualquer coisa?
Amuo… que coisa!
Uma nuvem encobre o sol, está a ficar frio e levanta-se o vento norte. Quero soltar-te a mão e apertar o casaco, mas… e se te vais embora? Se estás só à espera que eu desenrole os dedos dos teus para me dizeres adeus? Nada é mais frio que a tua ausência, por isso não te largo — venham as gripes e constipações!
Já o vento me revistou o avesso do casaco e os dentes gastaram o marfim de se morderem para dominar a tremura. Ralho comigo em pensamento, já grito cá dentro e puxo-te pelos dedos, à bruta, com uma vontade secreta de te magoar um pouco. Pois não vês que me gela esse teu silêncio?
Atiro os meus lábios contra os teus; o frio derrete-se numa vontade febril de te provar. O teu peito choca com força contra o meu, como se os corações, atraídos um pelo outro, arrastassem os corpos rígidos.
O calor, o teu calor, dá-me vida, vontade de chegar à tua pele e tecer carícias. Encosto-te a uma árvore, uma dessas muito bem alinhadas com as outras a ladear o caminho por onde vamos. Só nós estamos em desalinho e temos fome de amor.
O silêncio agora está cheio de murmúrios e eu invado a tua intimidade sem pudor. As tuas mãos apertam-me e sinto a ponta das tuas unhas na minha pele: quase dor, quase prazer.
Os pássaros levantam voo naquele momento em que voamos também, em que as nossas almas esbarram e se enroscam.
Percebo que as nuvens já caminharam no céu e destaparam o sol que te contorna o rosto, mas são os teus olhos que mais brilham. Tens um sorriso lindo, tens sempre, mas, depois de fazermos amor, o teu sorriso ainda fica mais límpido — assim como uma manhã de primavera que é só felicidade. Beijas-me outra vez e refilas comigo; dizes que demorei uma eternidade a abraçar-te. E eu ralho mentalmente comigo: por que demorei tanto a chegar a ti?
Alaya